sexta-feira, 26 de junho de 2015

A POBREZA CRISTÃ GERA FRATERNIDADE

Um ano depois de participar de uma missa com o papa Francisco, na capela Santa Marta, no Vaticano (encontro que até hoje está vivo em minha memória), eis que ouço ele falar novamente sobre o papel da pobreza na vida cristã. O texto foi extraído da rádio Vaticana, que reproduziu a fala do pontífice transmitida no último dia 16 de junho. O papa se concentrou na leitura da 2ª carta de Paulo aos Coríntios (8,1-9), que focaliza a questão de “organizar na Igreja de Corinto uma coleta para a Igreja de Jerusalém, que vive momentos difíceis de pobreza”.

Para evitar que a coleta se verificasse de forma errada, o apóstolo “faz algumas considerações”, uma espécie de “teologia da pobreza”, disse o papa. Por que tudo isso? Porque essa palavra ‘pobreza’ deixa sempre ‘perplexidades’, disse Francisco. “Mas este sacerdote fala demasiado sobre a pobreza, este bispo fala de pobreza, este cristão, esta religiosa, falam de pobreza... Mas são um pouco comunistas, não é?”. No entanto, o santo padre Francisco frisa muito bem que a pobreza está no centro do Evangelho, e é ela que nos permite entender e acolher o ensinamento e o testemunho do nosso único mestre Jesus Cristo.

Comentou o papa Bergoglio sobre o exemplo da Igreja da Macedônia que “na grande prova da tribulação – porque sofriam tanto devido às perseguições – na pobreza extrema, a sua alegria superabundou e superabundaram na riqueza da sua generosidade”. E depois de ter feito este exemplo, Paulo dirige-se de novo para a Igreja de Corinto. Continua o papa: “E dado que vós sois ricos, pensai neles, na Igreja de Jerusalém”. Mas, perguntou o Papa, de qual riqueza fala Paulo? “Sois ricos em todas as coisas: na fé, na palavra, no conhecimento, em cada zelo e na caridade que vos ensinamos”. Portanto, “assim, dado que sois ricos, abundai também nesta obra de generosidade”.

Nesse sentido, Bergoglio mostra toda a sua concretude de como viver a nossa fé: “Quando a fé não chega aos bolsos, não é uma fé genuína”. Essa ‘regra de ouro’ revela que a nossa vocação cristã não pode ser iludida por palavras. Alias, hoje em dia, parece que a vida dos cristãos é marcada mais por palavras do que por exemplos. Justamente, dizia o papa, que Paulo salientou a “contraposição entre a riqueza e a pobreza. A Igreja de Jerusalém é pobre, está em dificuldade econômica, mas é rica, porque tem o tesouro do anúncio evangélico». E “Esta Igreja de Jerusalém, pobre, que enriqueceu a Igreja de Corinto com o anúncio evangélico: deu-lhe a riqueza do Evangelho”.


Acrescentou o pontífice: “Um intercâmbio recíproco, da pobreza vem a riqueza”. Segundo o papa, aqui se pode fundamentar a questão da teologia da pobreza: “Paulo, com o seu pensamento, chega ao fundamento daquilo a que podemos chamar ‘teologia da pobreza’, porque a pobreza está no centro do Evangelho”. São Paulo escreve: “De fato, conheceis a graça do nosso Senhor Jesus Cristo: era rico e fez-se pobre por nós, a fim de que vos torneis ricos por meio da sua pobreza”. Assim sendo: “Foi precisamente o Verbo de Deus que se fez carne, o Verbo de Deus nesta condescendência, neste abaixamento, neste empobrecimento, que nos tornou ricos nos dons da salvação, da palavra, da graça”.

Aqui está “o centro da teologia da pobreza”. Francisco explicou: “Ser pobre é deixar-se enriquecer pela pobreza de Cristo e não querer ser rico com outras riquezas exceto as de Cristo, é fazer o que Cristo fez”. Continua o nosso papa: “quando oferecemos uma ajuda aos pobres, não fazemos de modo cristão obras de beneficência”. Pobreza cristã é “que eu ofereço ao pobre do que é meu e não do que é supérfluo, também do necessário, porque sei que ele me enriquece. E por que me enriquece o pobre? Porque Jesus disse que ele próprio está no pobre”.

Deste modo, podemos definir que a pobreza não é uma ideologia. Conforme a reflexão do sumo pontífice, a “pobreza está no centro do Evangelho. Na ‘teologia da pobreza’ encontramos o mistério de Cristo que se abaixou, se humilhou e se empobreceu para nos enriquecer”. E continua: “Assim, compreende-se porque a primeira das bem-aventuranças é: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito’”. E “ser pobre de espírito – frisou o pontífice – é ir por este caminho do Senhor, o qual ‘se abaixou’ a ponto de se fazer ‘pão por nós’ no sacrifício eucarístico. Isto é, Jesus continua a abaixar-se na história da Igreja, no memorial da sua paixão, no memorial da sua humilhação, no memorial do seu abaixamento, no memorial da sua pobreza, e enriquece-nos com este ‘pão’”. Conclui o papa com essa oração: “Que o Senhor nos faça entender o caminho da pobreza cristã e a atitude que devemos assumir quando ajudamos os pobres”.

Fonte: Claudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário