quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Coluna do Heródoto - O TOURO BRAVIO

 A mente mente. As vezes consciente, as vezes inconscientemente. Contar uma mentira exige atenção do autor, uma vez que sempre que voltar ao assunto, deve repeti-la  sob pena de ser pego na mentira, ou como  diz o Erasmo Carlos : “corta o rabo dela, pisa em cima, bate nela...” Enfim fica escravo dela.  Mentira não se confunde com a versão dos fatos narrados a partir de uma perspectiva e concepções próprias. Contudo, qualquer descuido e a mente sai na frente e cria novas mentiras, por isso é preciso mantê-la sob rédea curta, para que não assuma a dianteira e propague inverdades. No budismo há todo um método de controle da mente que passa por meditação exaustiva. Ela é comparada com um touro ou um cavalo bravio, animais difíceis de serem domesticados a não ser com muito empenho. Ainda assim, um descuido e lá vai o cavaleiro para o chão. A vigilância tem que ser diuturna e exige um esforço constante. A mente é considerada o grande obstáculo para a libertação do sofrimento diário por isso os mestres ensinam que sem o seu controle não se vai para lugar nenhum.

 Há um mito popular que diz que os réus podem mentir no processo para se defender, as testemunhas, não. Ele é reforçado quando, em audiência, o juiz alerta a testemunha para os rigores da lei caso não diga a verdade, mas não faz o mesmo para o réu. Os leigos, como eu, entendem que todo e qualquer acusado tem o direito de mentir sem ser punido. Contudo, o réu pode permanecer calado, ou seja ele não é obrigado a se auto incriminar, ou colaborar com a acusação. E mais o silêncio não pode ser confundido com uma confissão, como diz o dito popular. Juridicamente, diz o mestre Adilson Dalari, quem cala não consente. O que é necessário  entender é que qualquer um tem o direito de contar sua visão e interpretação dos fatos como forma de se defender de uma acusação. Esse direito é amparado nas constituições dos países democráticos. Nada tem a ver com a adoção da tortura para “ arrancar a verdade “, como nos tempos da Inquisição, em que o réu “ confessava” para escapar das barbaridades cometidas em nome da religião. Era preferível morrer na fogueira, em um Ato de Fé, do que permanecer permanentemente sob as mais cruéis torturas que os seres humanos foram capazes de criar.

Mentir não é um pecado mortal na justiça brasileira, ao contrário de outros países, como nos Estados Unidos, onde todos juram dizer a verdade, somente a verdade. Ser pego na mentira dá punição severa. Há os que divergem disso e alegam que mentir é uma herança cultural brasileira. Vai do Pedro Malasartes às audiências da Lava Jato. Se mentira não provoca uma punição, ela pode muito bem se alinhar entre o arsenal de argumentos á favor do réu. Passo número um, jamais admita nada, ou assuma um ato reprovável que tenha praticado. Pode ser um homicídio flagrado pelas câmaras de segurança de um condomínio, ou um gol de mão visto por milhares de torcedores em um estádio de futebol. Um mente para escapar da justiça, outro mente para ficar bem com a torcida e quem, quem sabe, virar um herói nacional. Em todos esses casos a mente está presente, ora articulando sua própria mentira, ora repetindo o que lhe mandam dizer seus mentores . O fato é  que no país do Macunaíma, herói sem caráter, uma mentirinha não dói, parafraseando o sucesso sertanejo.

Fonte:  Jornalista Heródoto Barbeiro - Record News/SP.


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