Foi num dia qualquer, no meio da semana, nenhum evento ou data comemorativa; apenas resolveram sair para jantar.
A noite estava agradável, temperatura bem abaixo da que costuma frequentar o termômetro naquela época do ano. Havia chovido por toda a tarde, providencial presente trazido pela frente fria que chegara na noite da véspera.
O casal (20) chegou ao restaurante por volta das 20 horas, deixando o carro estacionado na rua, a uns 20 metros da entrada do estabelecimento, que ficava um pouco elevado em relação ao nível do passeio público. Ainda chovia de leve, na verdade serenava, como se costuma dizer.
Quando o recepcionista da casa os viu, desceu apressado os seis ou sete degraus que venciam o desnível e ofereceu seus préstimos:
— Posso ajudá-lo, senhor?
O senhor, meio surpreso (e meio), agradeceu a gentileza, dizendo ao funcionário do restaurante que não precisava, que estava tudo bem, ainda sem entender direito tal iniciativa do diligente homem. Teria ele o confundido com alguma personalidade? — indagou-se em pensamento, resistente a admitir outra possibilidade.
O jantar foi bom, o local não estava cheio nem barulhento; foi uma noite agradável, enfim, como outras noites de outros tempos.
De volta, ao chegarem em casa a esposa preparou um chá, que tomaram ali mesmo na copa-cozinha, sem açúcar, do jeito que a dieta gosta. Depois um banho, e cama. Ela foi primeiro, ele logo em seguida (houve tempo em que iam juntos, e o banho rendia, como rendia!).
Só, no banheiro, banho tomado, ele, diante do espelho (quanta vírgula no meio do caminho, Drummond!…), escovou os dentes, e enquanto penteava o que lhe restara de cabelos lembrou-se da cena na chegada ao restaurante. Foi quando se deu conta de que seu corpo havia envelhecido bem mais que sua mente admitia.
Repassando na memória a inesperada cena, viu-se no passeio público de mãos dadas com sua amada, caminhando a passos curtos e cuidadosos para não escorregar no piso molhado da calçada parcialmente coberta de lodo, rumo ao desafio dos seis ou sete degraus que sua vista já alcançava. Recém-saído de um resfriado ou virose, o rosto ainda abatido, olheiras, a barba curta e branca como a neve, o corpo meio arqueado (e meio) por causa do velho problema de coluna… Era como se ele olhasse a si próprio pelos olhos do recepcionista; nesse instante, finalmente a ficha caiu, e ele percebeu que teria agido da mesma forma caso estivesse no lugar do funcionário do restaurante, e vice-versa (quem dera essa prosa fosse verso!).
Ainda pensativo, apagou a luz do banheiro, mas não a imagem de seu rosto de quase 70, bem distante daquele que exibia nos áureos anos 70, e foi para a cama. Sua esposa já dormia. Deitou-se de costas, e ficou a olhar para o teto escuro à procura de alguma luz, como se buscasse ver algo além do que pairava em sua mente. Metade de si querendo o reparador descanso do sono; a outra, acesa, qual fosse a luz perene do pensamento que não desliga.
Por alguns instantes, ficou ali a pensar… na brevidade da vida, no passar inexorável do tempo, na imagem que temos de nós mesmos, do nosso corpo, morada breve de nossa essência, essa que amadurece mas não envelhece, e que pensamos ser eterna. Por fim, a metade insone juntou-se à que já dormia, deixando-se vencer pelo sono, que haveria de, em sonho, trazer de volta algumas páginas remotas do calendário da existência.
Da mente, desperta, para o corpo, adormecido:
“Minhas metades são tuas, todas elas, menos duas”.
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